Roadtrip com crianças: Brasil, Uruguai e Argentina

19 de Janeiro de 2018   |   América do Sul, Argentina, Buenos Aires, Roadtrip, Roadtrip com crianças, Uruguai

Uma roadtrip com crianças entre Brasil, Uruguai e Argentina é possível? Sim! E eu conto como foi essa experiência! Parece clichê, mas fazia parte das metas de ano novo: colocar os pés fora do país. Viajar para o exterior estava no primeiro lugar da lista. Mas conciliar preços, datas, férias com marido e filhos (filha, no caso só uma mesmo) não era tarefa fácil.

Argentina – Casa Rosada

Então, começamos pensando nos filhos: hotel, estrutura, banheiros (banheiros são importantes quando se tem filhos!), diversão… Resorts! Maravilha. Vamos pesquisar belos resorts! E Cancún e Caribe foram os primeiros lugares que vieram em mente. Pesquisamos e, nada contra, mas aqueles valores para ficarmos somente dentro de um hotel ainda não faziam parte do nosso estilo de viagens e fomos desanimando…

Não tínhamos mais do que 10 dias livres e sabendo que era tempo suficiente, pensamos e pesquisamos diversas viagens que ainda queríamos fazer pelo Brasil. Mas, a meta era cruzar a fronteira!

Então, colocamos na ponta do lápis e o espírito pé-na-estrada nos tomou conta novamente. Estava decidido: iríamos fazer nossa segunda viagem de carro juntos. A primeira, em 2011, percorremos 3.685km de Florianópolis-SC a Natal-RN. Agora, em sentido oposto, nos programamos para 9 dias de viagem, 5 pessoas (4 e ½, tinha uma pirralhinha de 4 anos), 3 países, 3262km de estradas terrestres, 72km de travessia aquática, 311 litros de gasolina, 25 pedágios, zero intercorrências, tudo previamente planejado.

Então, liga o ar condicionado, dá partida e vamos lá viajar um pouquinho nessa aventura:

Antes de sairmos nos aventurando sobre quatro rodas em outros países e outras culturas, nos programamos para o primordial: documentos, revisão do carro, dinheiro, hotéis e um roteiro.

  1. Documentos. Mesmo um país amigo vizinho, tem exigências mínimas de documentação para entrar. Nessa viagem, era preciso carteira de identidade civil com validade dos últimos 10 anos, inclusive para a pequena de 04 anos que ainda não tinha e agilizamos o quanto antes; e, o seguro Carta Verde, obrigatório para quem quer ir para os países do Mercosul de carro. Para contratar essa cobertura já tendo segurado ou não seu carro, basta entrar em contato com um corretor de seguros que ele estará apto a explicar quais as melhores formas de contratação. De maneira geral, são requisitados dados como placa do veículo, chassi, marca, modelo, ano de fabricação e cor. São registrados também os dados pessoais do proprietário do veículo que viajará. Os valores variam pelo período de validade do documento e até 2017, não passou de R$130,00 para até 14 dias.

Além desses docs obrigatórios, viajando com crianças é essencial levar a caderneta de saúde, incluindo o calendário básico de vacinação.

  1. Carro. Tão importante quanto os documentos pessoais é a segurança do veículo. É primordial sair por aí com um carro revisado: pneus, step, documentos em dia, cinto de seguranças ajustados, cadeirinhas apropriadas para as crianças, óleo, motor, tanque cheio e água onde tiver que ter água!

A minha dica para viagens mais longas de carro e, principalmente, uma roadtrip com crinaças é ter no porta-luvas: manual do carro e um mini kit sobrevivência com lenços de papel ou papel higiênico, uma toalha pequena ou pano de prato, lanterna e sacolas plásticas para o lixo e até enjôos inesperados.

Além disso, é essencial uma bolsa térmica para manter garrafinhas de água resfriadas até a próxima parada de abastecimento. E lanches e petiscos são sempre bem vindos para os momentos de monotonia na estrada. No carro, a fome é sempre maior e um espaço reservado para um pequeno estoque de lanches é uma boa dica.

  1. Dinheiro. É importante dar um Google antes pra saber qual a moeda e valor de conversão em relação ao nosso Real. No nosso caso, iríamos trabalhar com dois tipos de moedas: o peso Uruguaio e o peso Argentino, que tem valorizações diferentes. E uma coisa é certa: tem que ter dinheiro em espécie. Um cartão internacional também é muito útil, mas o dinheiro na mão é indispensável para poupar impostos, converter no câmbio e pagar pedágios.
  2. Hotéis. Ah aqui temos uma experiência ímpar pra contar. Como disse, temos um estilo de viagem mais aventureiro. Como dizem por aí, existem os turistas e os viajantes. Nós somos viajantes, sem dúvidas. Iniciamos nossa viagem em Florianópolis e programamos nossa primeira parada no Chuí-RS. E ao invés de hotel ou hospedagem mais habituais, reservamos nossas primeiras hospedagens pelo serviço online comunitário de acomodações e serviços de hospedagem (Airbnb). Nossa experiência com o site foi boa, mas somente boa mesmo, o que nos fez pegar outro rumo no meio da viagem. Acompanha só:
  3. Roteiro. No primeiro dia percorremos direto no sul do Brasil e chegando ao Chuí, ficamos numa casa, bem conservada, porém antiga como o bairro e a própria cidade; ficava há duas quadras das avenidas que separam o Chuí do Uruguai: do lado brasileiro, a Av. Uruguai e, do lado uruguaio, a Av. Brasil. Depois de acomodados, fomos andando pelo bairro – experiência de vivenciar a cidade – até as avenidas beeem movimentadas, onde se concentram bons Free Shops, lojas diversas e restaurantes. Tem inclusive um cassino do lado Uruguaio, onde é permitido. Mas não se enganem a paisagem passa longe de ser agradável. Como disse, a cidade é antiga, interiorana e, literalmente, no final do país. Vale a pena o registro da passagem pela cidade, mas não há porque se demorar por lá. Seguimos viagem após uma noite de descanso e a próxima parada seria Punta Del Leste. Antes disso, passamos pela fronteira Bras-Uru, sendo necessário apresentar toda aquela documentação individual e do carro para serumaninhos um tanto quanto introvertidos, se é que me entendem. Com a mesma impressão que tive ao desembarcar no Chuí, ao parar naquela aduana voltei mais ou menos 30 anos no tempo e me senti viajando numa kombi de cortininhas florais pelas highways dessa vida. Toque de fundo aquela trilha sonora de cidade abandonada e você entenderá como eu me senti (risos). E são exatamente essas sensações que cada lugar te proporciona, que justifica cada quilômetro rodado de carro. Essa é a magia das roadtrips.

Liberados com toda a falta de simpatia dos aduaneiros, melhoramos nossos ânimos ao visualizar as paisagens encantadoras dos pampas uruguaios. A experiência é singular e toda aquela mansidão te faz suspirar e refletir sobre como deve ser a vida daqueles que ali habitam. Com estradas boas, bem sinalizadas, seguimos admirando a vegetação, as planícies e os animais pastando entre os bosques de eucaliptos que decoravam os caminhos.

Uruguai – Mercado Agrícola

Chegamos a Punta por volta das 15hs, com sol a pino, em meio a prédios luxuosos e uma praia de chamar atenção. Paramos para tomar um café e um suco de laranja pra filhota, esticar as pernas e turistar em um dos balneários mais luxuosos da América do Sul. Lá no calçadão já se avista o monumento La Mano (ou Los Dedos ou ainda Hombre), ponto turístico clássico de todas as fotos deste lugar. A escultura gigante imita cinco dedos emergindo da areia e é bem disputada para fotos. Difícil mesmo é achar um lugarzinho para fazer aquele registro fotográfico alone, mas é possível contratar fotos feitas por drones que estão sobrevoando a todo instante o local.

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Dali fomos em busca da nossa segunda moradia ainda pelo mesmo serviço online de hospedagem. Estava tudo certo para uma casa ali mesmo em Punta del Este e fomos ao nosso novo endereço. Eis aqui um dos três motivos para utilizarmos o plano B de hospedagem, que direi mais a frente. O nosso susto foi breve e logo solucionado: o que ocorreu foi que a anfitriã não estava no local para nos receber e apenas deixou um post it na porta da casa informando que voltaria à noite. Até acharmos o post it e a “casa” já havia anoitecido e perdemos tempo suficiente para não aproveitarmos o pôr-do-sol de um trapiche ali perto. Uma pena! Não deixem de aproveitar! Enfim, quando encontramos o nosso novo habitat, completamos nossa decepção pela divergência da hospedagem descrita e a ofertada. Devo ressaltar que toda a preocupação era maior por estarmos com a filha, que apesar de já se mostrar aventureira, não deixa de ser criança e ter suas necessidades como tal (segundo motivo para o plano B de hospedagem). Então, continuando, o que era “casa” passou de casa para uma suíte de sobrado no quintal de uma residência estilo americana. Conseguimos nos acomodar, tomar um banho e até aproveitar aquele quintal para brincar com a filhota.

Uruguai – Catedral

Na manhã seguinte saímos em busca de Punta Ballena, próxima atração turística planejada na nossa rota, onde se localiza a famosa Casapueblo, com vista belíssima e estilo mediterrâneo é parada obrigatória para uma foto, no mínimo. Atualmente, funciona como museu, restaurante e hotel – veja horários de funcionamento e organize seus horários para visitação. Nós passamos por lá na manhã de uma segunda-feira de carnaval e, logo, partimos em direção à capital do país: Montevidéu.

A primeira parada foi no Mercado Agrícola de Montevideo, declarado patrimônio histórico do país desde 1999 e reformado em 2013, se tornando um ótimo atrativo familiar para vivenciar um pouco a cultura local. Reúne lojas (que são verdadeiras pinturas) de frutas, verduras e alimentos frescos, lojas de artesanatos, souvenirs, loja de antiguidades, além da praça de alimentação com pratos típicos e espaço kids para alegria dos pais de plantão.

Na sequência fomos para Ciudad Veja (Cidade Velha), centro histórico da cidade, no Mercado del Puerto experimentar a tão famosa parrillada uruguaia. E, podem nos julgar, mas com orientação do próprio garçom, pedimos uma versão brasileira do prato, assim a parrillada não viria com as opções de ‘miúdos/vísceras’ (tipo rins, intestino, glândulas e chouriço). Não saia do mercado sem visitá-lo por dentro e visualizar toda aquela técnica de churrasco com grelhas e fogo alto. Em uma breve volta em torno do mercado você ainda pode encontrar um café, um sorvete e alguma antiguidade com os ambulantes. É uma experiência única.

Dali, partimos para a nossa terceira, mais incrível e última hospedagem pelo site de aluguéis. Ficamos dois dias em uma casa exatamente no centro de Montevidéu, cujo proprietário era militar da Marinha e nitidamente vivia naquela casa entre um aluguel e outro. Havia história naquele lugar, artigos pessoais, um quarto infantil com livros e brinquedos para felicidade da filha e muita cara de lar. Aproveitamos a moradia e fomos ao mercado de bairro mais próximo comprar carne para um bom churrasco feito pelo próprio marido e repor o estoque de café da manhã. O churrasco em casa é mais uma daquelas experiências que só esse tipo de viagem pode oferecer. E devo dizer, sem dúvidas, que foi o melhor que comi durante toda a viagem. Na verdade, comer algo nunca nos pareceu tarefa tão difícil. Os temperos (ou a falta deles), os sabores, a gordura e até o café não era algo tão familiar como nem havíamos imaginado! E este foi o terceiro e último motivo para abandonarmos os aluguéis de hospedagem logo depois da nossa estadia em Montevidéu: comida. Vivenciar a cidade pela ótica de morador é realmente incrível e proporciona momentos únicos, como ver sua filha fazer amizade em 15 minutos com a vizinha, cada uma falando em seu idioma e se entendendo no esforço de serem compreendidas. Mas, a estrutura, segurança e café-da-manhã que o hotel proporcionaria falaram mais alto. E a partir daqui, as hospedagens foram todas em hotéis. Hotéis que ficamos: Hotel Romi em Colônia del Sacramento (hotel com cara de café de pousada – bom para pernoitar e tomar café da manhã) e Reconquista Garden em Buenos Aires (centro da cidade).

Rio Prata – pôr-do-sol

Com um dia inteirinho programado para conhecer Montevidéu, vale a pena passear pelos cartões postais da cidade: Catedral Metropolitana, principal igreja católica da capital; Plaza Independencia, que delimita a Ciudad Vieja do novo centro uruguaio e ainda mantém em pé a Puerta de la Ciudadela,  um portal que restou da antiga muralha que protegia Montevidéu na época colonial. E em terras de General Artigas, na Praça da Independência você ainda encontra uma estátua monumental deste próprio ser sobre seu cavalo. Para quem quiser aprofundar os conhecimentos históricos, a Praça está rodeada por 3 museus, 1 teatro e ainda na parte subterrânea se encontra o mausoléu do militar e herói – General Artigas. Agora, de carro, você pode ir até ao Palacio Legislativo, sede da Câmara dos Deputados e do Senado. É um prédio imponente, arquitetônico, e-nor-me, digno do nome que carrega. Fizemos aquela clássica visita por fora, apenas para tirar fotos e, com sorte, presenciamos o ensaio militar da posse do novo presidente da Câmara; também aproveitamos o parquinho sob as sombras de belas árvores e toda essa despreocupação tinha motivo: um estacionamento amplo e ao lado do palácio – conta muito nas viagens de carro.

Estradas do Uruguai – Eucaliptos

Enfim, seguimos para o sul do país! A próxima parada obrigatória deve ser Colonia del Sacramento, cidadezinha mais aconchegante e charmosa. Mas a nossa ida à Colônia nesse momento era literalmente de passagem: o objetivo era atravessar de balsa (ferry boat) para Argentina. E, pasmem: não tinha mais passagens (era terça-feira de carnaval). Façam reservas antes! Tínhamos essa dica e até tentamos, mas uma falha no processo de compra online não aprovou o pagamento e apenas “reservou”. Lembra do humor introvertido da fronteira? Ele reaparece aqui como se você fosse um fugitivo, um imigrante ilegal tentando atravessar o país. Juro. Então, após entrar em todas as agências e se comunicar com quem era possível, entendemos que não conseguiríamos chegar à Buenos Aires pelo Rio Prata.

Esse é um típico-clássico-característico momento de mudança de roteiro imediato numa roadtrip. Tínhamos duas opções: pernoitar em Colonia del Sacramento e perder uma diária de hotel já reservado em Buenos Aires ou dar um GoogleMaps e descobrir que 500km de estrada contornam o Rio Prata e te levam à capital argentina em pouco mais de 6 horas. Adivinhem o que fizemos? Estávamos de carro para viajar de carro! E quando piscamos já estávamos na parte mais incrível da viagem. Fora do roteiro, nos aventuramos por dentro do país, no desconhecido e com aquele suspense do que vem pela frente. A tranquilidade foi chegando quando víamos estradas cada vez melhores, diferentes do que temos do Brasil. Chegamos na Argentina à noite e fomos guiados pelo GPS para a rodovia Panamericana que faz parte de uma malha rodoviária que se estende de norte ao sul do continente americano (incrível!). E só soubemos de tudo isso depois de todo o acontecido.

 Chegando a Buenos Aires fomos direto ao hotel no centrão da cidade. Estacionamos o carro na garagem e só o retiramos dois dias depois para irmos embora. Na capital, com apenas dois dias de estadia, optamos pelo city tour em um bus turístico, incluindo transfer para o jantar em uma casa de tango. Essa é uma ótima opção com crianças, pois o próprio ônibus é um atrativo divertido para eles (e adultos também! rs), além de economizar no cansaço de andanças. Acorde, tome um bom café da manhã, e pegue o próximo ônibus na parada mais próxima. Você será levado por uma visita guiada por áudio (com opções de idiomas) pelos principais pontos turísticos da cidade, em três rotas diferentes. Em um dia você consegue conhecer toda a cidade, sem descer do ônibus pra visitações. Escolhemos os principais cartões-postais e fizemos uma breve visitação no Caminito, Jardim Japonês, Obelisco, Casa Rosada e Catedral Metropolitana.

Dois dias depois iniciamos nosso trajeto de volta e conseguimos retornar pelo Rio de la Plata com destino à Colonia del Sacramento. Presenciar o pôr-do-dol no Rio foi uma experiência incomparável e veio compensar nossa pequena decepção anterior. Desembarcamos e nos instalamos em uma das simpáticas pousadas da cidade açoriana até a manhã chuvosa do dia seguinte. Sob chuva fizemos um breve city tour pela cidade de carro e seguimos o nosso rumo de volta para casa, já com o caminho na palma das mãos.

E essa foi nossa super experiência de viagem de carro pela América do Sul explorando um pouco dos dois países vizinhos. E o que era meta de ano novo superou nossas expectativas e nos deixou saudades.

Dicas de ouro para a viagem: 1. utilizamos um aplicativo de GPS, o maps me, gratuito, rápido, permite acesso offline de mapas de todo o mundo, o que nos garantiu navegação 24 horas; 2. carregador veicular para celular, de preferência 2em1 universal.

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Por
Lílian Fausto
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